Malabarismo invisível
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Entre clientes exigentes, formações constantes e responsabilidades familiares, os profissionais e formadores de beleza vivem num equilíbrio frágil que afeta a saúde física e emocional. O setor pede reconhecimento, estrutura e um novo olhar para quem cuida de todos, menos de si.
No coração dos salões e academias vive-se uma realidade pouco falada de horários inconstantes, exigência emocional e formação contínua que transformam o dia-a-dia dos profissionais num malabarismo difícil de equilibrar. Entre ser empresário, técnico, conselheiro, formador e, ao mesmo tempo, pai ou mãe, o tempo parece sempre curto.
Segundo Jorge Silva, responsável pelo Jorge Silva Hair Concept, a rotina só funciona quando existe espaço para respirar. “Dou liberdade a toda a minha equipa para que, sempre que se sintam desconfortáveis, criarem um momento de lazer, de tranquilidade. Temos um espaço dedicado a esse efeito para que os momentos de pausa e auto-cuidado sejam verdadeiramente revitalizadores.”
Jorge Silva
Empresário e Diretor Criativo
Empresário e Diretor Criativo
O PESO DA RESPONSABILIDADE
As profissões da área da beleza carregam um peso que passa despercebido. O calendário é ditado pelos clientes, que procuram os salões quando têm mais tempo, ou seja, nas épocas festivas, nas férias, aos fins de semana e fora do horário laboral. “Não há como enganar, o setor do cabeleireiro tem essa dificuldade bem latente, sempre que as pessoas têm mais disponibilidade, o tráfego nos cabeleireiros é maior. Quem escolhe esta profissão, escolhe um propósito e uma forma de estar que compreende essas provações e essas dificuldades.”
Além das horas, existe a exigência emocional. “Quando o lema é receber pessoas, é determinante aferir o nível energético e o nível de expectativa. É um nível de corresponsabilização que temos sempre que sentir na abordagem. Muitas vezes, procuram-nos quando estão emocionalmente debilitadas à procura de algo mágico, que impacte a sua vida. Se nós não estivermos capazes de transmutar essa energia e elevar a vibração, corremos sérios riscos de nunca chegarmos ao propósito. Por outro lado, ao final do dia, temos que fazer um reset a nós próprios, é quase uma reciclagem diária para reenergizar a nossa saúde física, mental e emocional.”
Também Carina Gomes, formadora internacional na área das unhas, sente essa pressão constante. “Nunca deixei o atendimento de lado, porque acredito que para formar alguém de forma completa é essencial estar em contacto direto com clientes, acompanhar tendências e perceber, na prática, os problemas que surgem no dia-a-dia. Esse contacto contínuo mantém-me atualizada, alinhada com a realidade do setor e com as necessidades reais do mercado. A minha rotina é, por isso, um verdadeiro malabarismo diário entre atender clientes, gerir alunos, preparar cursos e acompanhar a administração da academia.”
Carina Gomes
Formadora Master Internacional
Formadora Master Internacional
ENTRE O SALÃO E A FAMÍLIA
Equilibrar o tempo entre a vida profissional e a pessoal é um dos maiores desafios. Os horários irregulares e as exigências emocionais colidem frequentemente com a presença nos momentos mais importantes.
Jorge Silva reconhece que a própria natureza do setor dita essa dificuldade. “É evidente que vamos percebendo a pertinência da nossa presença e aqui e ali conseguimos fazer essa articulação. No entanto, é muito importante perceber, com sentido de responsabilidade, o que implica desempenhar esta profissão e que é nas alturas festivas que nós também nos tornamos importantes na vida das outras pessoas”.

No caso de Carina Gomes, o peso das ausências familiares deixou marcas difíceis de apagar. “Recordo com mágoa, por exemplo, que quando a minha filha Mel começou a ler eu estava constantemente a viajar e não vivi essa conquista com ela. O meu filho Rodrigo apresentou o trabalho final do 12.º ano, um marco tão importante na vida dele, e eu não estive presente. Já o Diego, que jogava futebol, nunca me teve em nenhum treino, até que num Natal ofereceu-me uma carta a dizer que a melhor prenda seria eu estar mais presente.”
São testemunhos que mostram como o trabalho no setor pode afastar os profissionais da intimidade familiar, mesmo quando a motivação é o amor pela profissão. A procura por equilíbrio torna-se, assim, uma necessidade individual e coletiva.
CAMINHOS PARA UM FUTURO MAIS JUSTO
Ambos acreditam na transformação do setor. Jorge defende que é preciso mais formação, não apenas técnica mas também humana. “Os gerentes dos espaços devem criar com as suas equipas dinâmicas para criar consciências e fazê-los sentirem-se importantes.”
Já Carina sublinha a urgência de mais estrutura e regulamentação. “Hoje vivemos um cenário em que a qualidade do trabalho nem sempre é valorizada e onde a ausência de regras claras abre espaço para desigualdades. É fundamental criar tabelas de referência e estabelecer condições de trabalho mais transparentes, que protejam tanto os profissionais como os clientes. Outro ponto essencial é a criação de apoios reais para os profissionais. Muitas vezes trabalhamos sozinhos, em horários extensos, sem rede de suporte e com pouca proteção social. Esse isolamento traz desgaste físico e emocional e impede que muitos consigam alcançar a estabilidade que tanto merecem.”

No fim, tanto Jorge como Carina deixam claro que não existe uma receita perfeita para equilibrar família e trabalho, mas há caminhos possíveis. Para Jorge, a chave está em criar consciência dentro das equipas, cultivar pausas reais e investir em formação para que os profissionais se sintam valorizados e capazes de lidar com a exigência da profissão. Para Carina, é essencial reconhecer os limites pessoais, colocar a saúde em primeiro lugar e reivindicar uma maior estrutura no setor, com regras claras, valorização e apoios concretos. Para os profissionais que vivem este malabarismo diário, a mensagem é clara: cuidar da família e de si próprios é tão importante como cuidar dos clientes e só com equilíbrio será possível garantir um futuro mais saudável e sustentável para todos na área da beleza.
Equilibrar o tempo entre a vida profissional e a pessoal é um dos maiores desafios. Os horários irregulares e as exigências emocionais colidem frequentemente com a presença nos momentos mais importantes.
Jorge Silva reconhece que a própria natureza do setor dita essa dificuldade. “É evidente que vamos percebendo a pertinência da nossa presença e aqui e ali conseguimos fazer essa articulação. No entanto, é muito importante perceber, com sentido de responsabilidade, o que implica desempenhar esta profissão e que é nas alturas festivas que nós também nos tornamos importantes na vida das outras pessoas”.

No caso de Carina Gomes, o peso das ausências familiares deixou marcas difíceis de apagar. “Recordo com mágoa, por exemplo, que quando a minha filha Mel começou a ler eu estava constantemente a viajar e não vivi essa conquista com ela. O meu filho Rodrigo apresentou o trabalho final do 12.º ano, um marco tão importante na vida dele, e eu não estive presente. Já o Diego, que jogava futebol, nunca me teve em nenhum treino, até que num Natal ofereceu-me uma carta a dizer que a melhor prenda seria eu estar mais presente.”
São testemunhos que mostram como o trabalho no setor pode afastar os profissionais da intimidade familiar, mesmo quando a motivação é o amor pela profissão. A procura por equilíbrio torna-se, assim, uma necessidade individual e coletiva.
CAMINHOS PARA UM FUTURO MAIS JUSTO
Ambos acreditam na transformação do setor. Jorge defende que é preciso mais formação, não apenas técnica mas também humana. “Os gerentes dos espaços devem criar com as suas equipas dinâmicas para criar consciências e fazê-los sentirem-se importantes.”
Já Carina sublinha a urgência de mais estrutura e regulamentação. “Hoje vivemos um cenário em que a qualidade do trabalho nem sempre é valorizada e onde a ausência de regras claras abre espaço para desigualdades. É fundamental criar tabelas de referência e estabelecer condições de trabalho mais transparentes, que protejam tanto os profissionais como os clientes. Outro ponto essencial é a criação de apoios reais para os profissionais. Muitas vezes trabalhamos sozinhos, em horários extensos, sem rede de suporte e com pouca proteção social. Esse isolamento traz desgaste físico e emocional e impede que muitos consigam alcançar a estabilidade que tanto merecem.”

No fim, tanto Jorge como Carina deixam claro que não existe uma receita perfeita para equilibrar família e trabalho, mas há caminhos possíveis. Para Jorge, a chave está em criar consciência dentro das equipas, cultivar pausas reais e investir em formação para que os profissionais se sintam valorizados e capazes de lidar com a exigência da profissão. Para Carina, é essencial reconhecer os limites pessoais, colocar a saúde em primeiro lugar e reivindicar uma maior estrutura no setor, com regras claras, valorização e apoios concretos. Para os profissionais que vivem este malabarismo diário, a mensagem é clara: cuidar da família e de si próprios é tão importante como cuidar dos clientes e só com equilíbrio será possível garantir um futuro mais saudável e sustentável para todos na área da beleza.

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